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Inter-Celtic 2014


“E levou consigo um gaiteiro nosso com sua gaita. E meteu-se a dançar com eles (os indígenas), tomando-os pelas mãos; e eles folgavam e riam e andavam com ele muito bem ao som da gaita.”

Carta de Pero Vaz de Caminha ao Rei de Portugal, 1500

famosa representação do século XVIII de um “índio gaiteiro” (que está na capa do CD “Alborada do Brasil” em “estilo cordel”) e que se acha na Catedral de Tui, Galiza, mesmo na raia do Minho com Portugal


Muitas pessoas estão perguntando como é que é isso da gaita no Brasil.

Quando Carlos fez um show pela primeira vez (e única pelo momento) com o seu próprio grupo no Brasil (no SESC Pompeia, em 1998), dividiu palco com o Renato Borghetti. Ele disse ao Carlos que seu instrumento se chamava gaita (!) e tocaram juntos, com as respetivas “gaitas”, uma peça, “Asa Branca”, que surpreendeu ao Carlos porque era uma música que não esperava achar no Brasil. Para ele era música de gaita de fole!

Passaram mais de dez anos até que Carlos teve a oportunidade de voltar ao Brasil e pesquisar mais a fundo essa intuição, mas como escreveu Leite de Vasconcelos (Etnografia Portuguesa, 1933) : “Os artistas adivinham muitas vezes o que, por outro lado, os investigadores de História descobrem à custa de fatigante labor cerebral”.

Carlos conheceu na Bahia ao musicólogo Manuel Veiga, quem lhe confirmou que esse instrumento citado na Carta do Descobrimento era uma gaita de fole. Também conheceu o musicólogo Pablo Sotuyo, que confirmou a suspeita do Carlos (que tinha ouvido no acordeão brasileiro ecos da gaita de fole: os bordões, as escalas, giros melódicos, a ornamentação…) de que a gaita no Brasil “não havia desaparecido”, senão que se “havia transformado em acordeão”.

Em São Paulo, Carlos conheceu um gaiteiro brasileiro e construtor de gaitas de fole, Robles Luques (com uma história pessoal incrível), que já havia recolhido muitas das citações sobre a gaita no Brasil que aqui se incluem. E também o musicólogo Paulo Castagna, que lhe deu uma notícia chave, o escrito sobre a partida da frota de Cabral em Lisboa, onde já mencionava a gaita ao lado da frauta, desfazendo qualquer dúvida sobre se se tratava realmente de uma gaita de fole ou de um tipo de flauta. E finalmente Carlos conheceu Tinhorão, em cujos livros está incluída praticamente toda a informação conhecida pelo momento sobre este assunto.

O próprio Tinhorão descreve este primeiro encontro transatlântico em 1500, nada menos que ao som da “gaita galega”:

Tal como permite concluir a lectura atenta da carta de Pero Vaz de Caminha (…)”com data 1º de maio de 1500 a El-Rei d. Manuel”, dando conta do “achamento” da “terra nova”, que seria o Brasil, o encontro inicial de europeus com habitantes locais revestiu-se de um claro clima de festa.” (José Ramos Tinhorão, As Festas no Brasil colonial, 2000)

“ao voltar o capitão de rápido reconhecimento do rio que desembocava na praia, vendo (…) na outra margen os indígenas “dançando e folgando, uns diante dous outros, sem se tomarem pelas mãos (…) atravessou o rio na compañía de um companheiro tocador de gaita galega e organizou de improviso uma espécie de baile ao ar livre”

“o instrumento usado pelos marujos portugueses em seu divertimento com os naturais da terra foi a gaita, que era então o mais popular instrumento da gente do campo em Portugal. E como a indicar que a maioria dos tripulantes das naus e dos que saíam para a aventura do mar eram gente das regiões rurais então em decadência, o outro instrumento musical citado logo adiante na carta de Caminha seria exatamente o segundo mais encontrado, ao lado da gaita galega, entre o povo português: o tamboril.”
(José Ramos Tinhorão, História Social da Música Popular Brasileira, 1998)

(…) talvez uma dança então em voga no norte de Portugal, considerada a referência à gaita galega e ao tamboril?”.
(José Ramos Tinhorão, As Festas no Brasil colonial, 2000)

Seguem varias outras noticias que atestam uma certa presencia da gaita no Brasil, até praticamente os nossos dias, mesmo tocada por indígenas - que pelo que se vê, gostavam muito - e também por negros.


“E o que mais levantava o espírito destas cousas, eram as trombetas, atabáques, séstros, tambores, frautas, pandeiros, e até gaitas, cuja ventura foi andar em os campos no apascentar dos gádos, naquele dia tomáram posse de ir sôbre as águas salgadas do mar, nesta e outras armadas, que depois a seguiram, porque, para viágem de tanto tempo, tudo os homens buscavam para tirar a tristeza do mar.”

(João de Barros, despedida da embarcação de Pedro Álvares Cabral, no porto de Lisboa, em 9 de março de 1500)

Em Portugal vi eu ja
em cada casa pandeyro
e gayta em cada palheyro
e de vinte anos aca
nam ha hi gayta nem gayteyro

(Gil Vicente, Triunfo do Inverno, 1529)

“Parézeme, según ellos son amigos de nossas músicas, que nosotros tañendo y cantando entre ellos los ganaríamos, pues differencia ay de lo que ellos hazen a lo que nosotros hazemos y haríamos si V. R.a nos hiziesse proveer de algunos instrumentos para que acá tañamos (imbiando algunos niños que sepan tañer), como son flautas, y gaitas, y nésperas, y unas vergas de yerro con unas argollicas dentro, las quales tañen dando con un yerro en la verga; y un par de panderos y sonajas. Si viniesse algún tamborilero y gaitero acá, parézeme que no havría Principal que no diesse sus hijos para que los enseñassen.”
(Bahia em 5 de agosto de 1552 pelo Pe. Francisco Pires, ao Pe. Pero Doménech em Lisboa)

“Acabada a festa espiritual lhes mandou o padre visitador fazer outra corporal, dando lhe um jantar a todos os da aldêa, debaixo de uma grande ramada. […] Emquanto comiam, lhes tangiam tambores, e gaitas.”
(Fernão Cardim S.J., Colégio da Bahia, 1585)

“Vamos, e fiquemos lá / um dia, ou uma semana, / que enquanto as gaitas se tocam, / sabe a roça, como gaitas.” “E nos vamos para a roça / com nosso feixe de gaitas / até ver me descasada / para me rir, de quem casa.”
(Gregório de Matos e Guerra (1633? - 1696))

Ay, repicai, miniña, o pandeiro que fazer hua festa queiro/ Ay, tangei con o gaiteiriño, que me morro de puro gostiño.
(Vilancico galego da vila de Lerma, S. XVII, Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro)

“tendo à frente um gaiteiro, que por singular fabrica do instrumento, e boa agilidade da arte fazia huma agradable consonancia. Gaiteiro, por sinal vestido “à castellana de seda encarnada” que, para mayor riqueza do contraste, vinha seguido de “hum moleque” – o que, na linguagem do tempo, valia por dizer um menino negro entre dez e quinze anos – “vestido da mesma seda tocando hum tambor”.
(Triunfo Eucharistico. Minas Gerais, 1733)

“Outra contradança houve intitulada dos cajadinhos, que, ao som de uma gaita de foles, a olhos cortesãos fizeram delicioso pasto de meneios, recoticos, cantos pastoris.”
(Epanáfora Festiva ou Relação Sumária das Festas com que a cidade do Rio de Janeiro, Capital do Brasil, se celebrou o feliz nascimento do Sereníssimo Príncipe da Beira Nosso Senhor (Lisboa, 1763))

“… três negros com gaitas de foles começaram a tocar pequenas toadas
em tons diversos um do outro”

(KOSTER, Pernambuco, 1812)

“No Carnaval de 1930, em Sao Paulo, encontrei na rua dois tocadores de gaita-de-foles”
(Mario de Andrade, Diccionario Musical Brasileiro)

Acordeona, gaita-de-foles (no Brasil antigo), realejo,
Fole (nome idêntico no norte de Portugal), harmônica
Diz-se gaita no Rio Grande do Sul, que corresponde, no
Nordeste e no Norte, ao pífano e as flautas rudimentares
e rusticas.

(Dicionário do Folclore Brasileiro, Luis da Camara Cascudo)

Cliquando aqui podem ver um gravado com um gaiteiro negro conservado na Biblioteca Nacional e feito por Rugendas, Rio de Janeiro 1830 (segundo nos disso o gaiteiro e pesquisador J. P. Van Hees, poderia tratar-se de uma visão idealizada de uma gaita de fole, ou talvez uma “zampogna”)

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